Um menino um dia decidiu descobrir o que era o natal, para além das prendas, da árvore e da compaixão das famílias que se reúnem nessa altura. Outro aspecto que intrigava o rapaz era ver na televisão pessoas ajudando outras realmente carenciadas, o oposto daquilo que ele vera durante o resto do ano, e pensou: - Se tenho de ser um bom rapaz agora é a altura.
O rapaz decidiu ajudar um mendigo que pernoitava numa paragem de autocarro, coberto por um manto roto que espelhava todo o esplendor da sua qualidade de vida ausente.
O jovem vasculhou por toda a casa objectos que de alguma forma pudessem ser úteis ao mendigo, assim como uma manta sem buracos, peúgas quentes, um pijama do pai e umas camisas de flanela que eram do seu avô. Na manhã seguinte ainda o sol mal nascera já o rapaz arrumava todos os pertences que havia reunido para levar ao mendigo. Comeu qualquer coisa e saiu rapidamente a caminho da paragem, não a fim de apanhar o autocarro mas para fazer a sua boa acção de natal. E lá estava o mendigo, no seu canto habitual, onde a ninguém se chegava perto.
O rapaz ficou algo confuso sobre a forma como o poderia abordar, mas com um saco tão grande e de tão próximo que se encontrava a olhar fixamente o senhor, era impossível disfarçar. Habituado a ser abordado nestas alturas do ano, o mendigo lá chamou o rapaz até si, com grande calma e naturalidade: - Chegue-se aqui. Diz para o rapaz.
Ao se aproximar do local onde o mendigo armazenara todos os objectos que as pessoas que passam todos os dias na paragem lhe deixavam percebe que tudo quanto levara já o senhor dispunha. O rapaz deixou o saco no monte acumulado e despediu-se do mendigo com alguma mágoa por dele não ter obtido mais que um sorriso e um agradecimento.
Ficou a remoer sobre o assunto e do porque de todas as pessoas se terem lembrado de levar o mesmo que ele: - Estariam a espreitar-me pela janela? Pensou o moço
- Mas se espreitavam porque não levaram outras coisas que também fizessem falta ao senhor?
Foi quando pensava em voz alta no seu quarto que teve a brilhante ideia de passar uma manhã a conversar com o senhor, uma vez que se encontrava de férias escolares, e estava apenas a três dias da consoada. Enquanto conversavam as pessoas que por ali passavam ficavam intrigadas com a naturalidade do rapaz, sentado sobre o banco da paragem com os pés cruzados e as mãos segurando o banco enquanto baloiçava os pés para frente e para traz. Na cara das pessoas não se vislumbrava o espírito natalício mas sim o novelesco. Conversaram durante horas. Já sabia que o senhor não tinha filhos nem mulher e apenas a solidão o acompanhava por isso tinha escolhido aquela paragem.
O rapaz tinha uma última pergunta: Tu vês muitas pessoas, no entanto não conheces ninguém, certo!?
- Errado. No princípio foi assim, mas hoje, conheço todas as pessoas e não vejo ninguém. Como podes ver, todas as pessoas trouxeram o mesmo que tu, existem algumas que todos os anos trazem o mesmo e até te posso adiantar que hoje ou amanhã uma outra pessoa virá falar comigo para tentar saber aquilo que tu hoje descobriste. Respondeu o mendigo, como quem sabe há muito aquilo que preenche a curiosidade social.
- Afinal sempre andam a espreitar na minha janela. Descodificou o rapaz para si com surpresa.
Despediram-se e quando chegou a casa pediu um quarto sem janelas como prenda de natal.
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Enviar um comentário